Vítor Pi

PeriPlus
Residências Artísticas

Data: 2018
Localização: Coêdo – Vila Real

‘…Tenho uma alegria imensa em estar vivo. Acordar e ver o Sol, mesmo quando as manhãs são cinzentas e invernosas. Mas vivo em melancólica tristeza, não desejada. De quando em vez uma doce luz passa por mim. Aconteceu em Coêdo quando cheguei para elaborar uma obra. Sabia que nasceria do meu contacto com as pessoas da aldeia. Elas me iriam dando os afetos com que a minha acção se realizaria. Assim foi. Logo à chegada conheci Marcilia, e sentia nela uma energia suave e bonita, de artista. Fiquei de imediato a saber que, sem sequer nisso falarmos, iria participar na minha laboração. No mesmo momento conheci Escaleira que logo me convidou para ir a sua casa beber um copo do seu vinho, aconteceu três dias depois da minha chegada. Tragamos do seu tinto enquanto falamos de coisas de falar. Pedi-lhe o vinho que restou para honrar numa das minhas janelas e o que tive de fazer foi trazer uma garrafa cheia. Donzilia também veio com um saco onde trazia coisas que semeou, com carinho tratou, e colhidas da terra veio partilhar connosco. Algumas das suas vagens ficaram a enriquecer o meu fazer.

O vizinho Manuel e o outro vizinho Manuel mais Raul o vizinho da frente, emprestaram-me todas as ferramentas de trabalho que necessitei e não tinha. Nela, também vizinha da frente, disse-me: – Logo vem jantar connosco. Fui. O prato onde comi, lá está em outra janela. No final de uma das tardes, tive nas mãos uma erva, era a harmonia entre o homem e a natureza e os animais. Por isso outra das janelas guardou o fruto desse momento. Raul, professor de matemática ao permitir que me sentasse à sua mesa, comer da sua comida, tinha de participar também. Coloquei-lhe nas mãos uma janela para que nela escrevesse as equações matemáticas que quisesse. Quando visitei o encantado museu de Marcilia, pedi-lhe uma das peças para outra das janelas, tal como o vinho, este museu feito do tudo e do nada, espaço sem tempo que Marcilia habita,tinha de estar presente na obra. E a sempre existente vontade de Sónia e de Sara, tornaram-se o meu terceiro e quarto braço. O brincar de menino com o Nadir… o abraçar Zézé, Matheus e os outros. As janelas que vos tenho falado trouxe-as Sónia de casa dos seus avós.

Os bem dispostos bons dias dados por Alfredo, sempre que passava com o seu carro de mão, umas vezes com batatas, outras com erva, também alegravam as manhãs. No final da tarde, a conversa era com o Manuel da Donzilia, quando vinha despejar o lixo, e à noite sentado no degrau, bebia o silêncio, fresco, da aldeia e da sua montanha. Assim a vida me entrega os meios de construção com que labora. Em jeito de despedida, como se em momentos assim vividos pudesse haver despedidas, Nela disse-me: – Ahhh foi um gosto ter conhecido um artista tão genuíno e tão próximo (já parecia da família), até para sempre. Beijo.

 

Agora que voltei à tristura do “só”, te digo Nela, semeei e colhi família em Coêdo, se não tivesse juntado a mim essa família, a obra que agora mostro não teria existido. É nesta liberdade de nos darmos, é nesta verdade de estarmos que a obra de arte me faz sentido.’

Vitor Pi

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